Uma bisa de vanguarda

Uma “bisa “ de vanguarda

Aos 79 anos, não prescinde da caminhada matinal na Praia de Ponta Verde. Egressa da frialdade, do nevoeiro paulistano, veio buscar o calor humano, o sol ardente, o mar azul, os coqueirais, a efervescência natural da capital alagoana; descobriu-os, pois, como facilitadores da inspiração que se revela nas telas, na escrita, na aquarela de sua vida.

Avessa ao encarquilhamento físico e moral inerente a muitos de sua idade, é uma senhora jovial, um espírito irresignado, um modelo de vanguarda. Faz musculação em academia, comunica-se com os familiares distantes pelo MSN, deixa recado no Facebook, reencaminha os e-mails de piada, toma cerveja gelada, joga canastra, faz trilha de 4 x 4, indica bons livros e os melhores lançamentos do cinema...

Cumpriu a tríade existencial – gerou filhos, plantou árvores e escreveu livros; mas longe se encontra de reputar seus sonhos realizados, eis que os renova em cada alvorada. Cambiar idéias com ela, ouvir suas digressões, seus improvisos, é sempre uma experiência proveitosa, um mote para glosar os percalços... Um estímulo para “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima” dos problemas, eis que sempre levianos.

No último encontro domingueiro com os amigos, contou, risonhamente, seu recente diálogo com a mãe, então, com 101 anos, através do telefone: “estou com saudade, mãe! Sabe quem sou eu? Sua filha que mora em Maceió, irmã de Salomão, de José e de Ester – seus outros filhos. Lembra? Sou a mãe de Sara, de Clara e de Moisés, lembra, agora?” Ah, é a minha Janette, como você vai, minha filha? Por que você não faz que nem eu e tem mais um filho? “Mãe, eu tenho 79 anos, já sou bisavó de três”. Tem razão, minha filha, tenha mais não, que filho dá muito trabalho...

Simone Moura e Mendes

 

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